Eram 10 bancos coloridos e eles
sempre a faziam lembrar-se de sua infância brincando de dança da cadeira. Dois
brancos, dois amarelos, três azuis e três vermelhos e ela procurava uma
linearidade entre esses bancos e pensava sobre em como precisava ser menos sistemática e a possibilidade de, na verdade,
ela ser um marinheiro do século XVIII. Dizem os antigos que em tempos de mar
calmo eles ficavam malucos... Quantos eus acabamos criando e quem de fato é o verdadeiro eu ou o outro? O desdobramento de sonhos e o universo refletido em si mesmo intrigavam demais a sua pobre mente que engrenava em mau estado de conservação.
E a vida andava morna demais. Nem fria, nem em
ebulição, estava tudo em banho maria, mas não chegava nem a ser agradável.
Agradabilíssimo ela não queria, tudo que era agradabilíssimo na vida das
pessoas era qualquer coisa que as faziam parecer um poodle insano latindo
efusivo e estridente de uma felicidade que no fim era só prisão. Enquanto isso
ela ainda não tirava a falta de linearidade dos bancos coloridos da cabeça.
Sempre ia sobrar um vermelho e um azul e haveria maneira deles fazerem parte um
do outro?
Hoje
ela sente o que eu sentia naqueles domingos que ficaram perdidos entre
chocolates e praças, gritos e frustrações. Não consigo decifrar o alcance e quando eu finjo que não
estou sentindo nada a única coisa possível de sentir é você. Ela já não tem
mais nada a ver com isso, nem Valerie, nem Virgínia, nem o imponderável, só o
imensurável que na verdade não passa de uma régua de 15 centímetros,
adequadamente feita para caber em um estojo.
Os
bancos coloridos agora estavam presos uns aos outros, a janela escancarada e o
pouco de sol que restava entre as nuvens de chuva a faziam ter uma ligação com
tudo isso que sempre estava ocorrendo. Tudo estava intrinsicamente ligado,
explicado, teorizado, com tanta metodologia vã. Essa merda não serve pra nada.
O
sol continuava incomodar a retina. Havia um bem-te-vi parado no fio de
eletricidade do poste em frente a janela do segundo andar e ela resolveu ver
como era ser um pássaro.
-
Segura a minha mão? Estou com medo.
-
Eu nunca soltei.
Ane B.
Ane B.

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