domingo, 3 de junho de 2012

Traditore, traditore...









Eram 10 bancos coloridos e eles sempre a faziam lembrar-se de sua infância brincando de dança da cadeira. Dois brancos, dois amarelos, três azuis e três vermelhos e ela procurava uma linearidade entre esses bancos e pensava sobre em como precisava ser menos sistemática e a possibilidade de, na verdade, ela ser um marinheiro do século XVIII. Dizem os antigos que em tempos de mar calmo eles ficavam malucos... Quantos eus acabamos criando e quem de fato é o verdadeiro eu ou o outro? O desdobramento de sonhos e o universo refletido em si mesmo intrigavam demais a sua pobre mente que engrenava em mau estado de conservação.
E a vida andava morna demais. Nem fria, nem em ebulição, estava tudo em banho maria, mas não chegava nem a ser agradável. Agradabilíssimo ela não queria, tudo que era agradabilíssimo na vida das pessoas era qualquer coisa que as faziam parecer um poodle insano latindo efusivo e estridente de uma felicidade que no fim era só prisão. Enquanto isso ela ainda não tirava a falta de linearidade dos bancos coloridos da cabeça. Sempre ia sobrar um vermelho e um azul e haveria maneira deles fazerem parte um do outro?
Hoje ela sente o que eu sentia naqueles domingos que ficaram perdidos entre chocolates e praças, gritos e frustrações. Não consigo decifrar o alcance e quando eu finjo que não estou sentindo nada a única coisa possível de sentir é você. Ela já não tem mais nada a ver com isso, nem Valerie, nem Virgínia, nem o imponderável, só o imensurável que na verdade não passa de uma régua de 15 centímetros, adequadamente feita para caber em um estojo.
Os bancos coloridos agora estavam presos uns aos outros, a janela escancarada e o pouco de sol que restava entre as nuvens de chuva a faziam ter uma ligação com tudo isso que sempre estava ocorrendo. Tudo estava intrinsicamente ligado, explicado, teorizado, com tanta metodologia vã. Essa merda não serve pra nada.
O sol continuava incomodar a retina. Havia um bem-te-vi parado no fio de eletricidade do poste em frente a janela do segundo andar e ela resolveu ver como era ser um pássaro.
- Segura a minha mão? Estou com medo.
- Eu nunca soltei.


Ane B.

Nenhum comentário:

Postar um comentário