quarta-feira, 22 de agosto de 2012
"E se eu te disser que meu travesseiro ainda tem teu cheiro? Eu sei, depois de tanto tempo... As paredes desse quarto exalam você e deve ser por isso que eu quero tanto mudar de casa. O pior de tudo é que, no fundo, eu já te esqueci, já não sinto mais sua falta, mas tenho a certeza que nunca mais terei a mesma sensação que tinha quando você estava aqui. Talvez alguém consiga tirar meus pés do chão de novo, mas de qualquer forma minhas asas ficaram com você. Talvez eu compre travesseiros novos."
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Diálogos de uma madrugada de embriaguez
- Eu não consigo entender um mundo que priva as pessoas de serem elas mesmas por um padrão ou uma convenção social completamente idiota.
- É bom o fato de, apesar disso, nada importar, pois da coisa mais idiota de se pensar, (ou da mais grandiosa) que é o fato de podermos morrer daqui 5 minutos ou daqui 50 anos, podemos tirar disso uma oportunidade gigantesca de viver 100% cada experiência ou momento.
- Essa sou eu, isso sou eu, é bom voltar a ser eu.
- Há muito tempo eu não pensava sobre isso, há muito tempo deixar de ser eu. Acho que essa que está aqui agora também sou eu.
- As pessoas não tem noção o quanto é incrível fazer isso, elas perdem tanto tempo obedecendo regras estúpidas e andando na "normalidade" estúpida, oprimindo sua própria subjetividade.
- Mas o segredo está em quebrar as regras. Estamos quebrando as regras, mesmo que seja estúpido como fumar em um lugar fechado, que é proibido, mas o que eles poderão fazer conosco? Pedir pra sairmos ou apagar o cigarro? Foda-se!
- Foda-se mesmo, faremos o que quisermos. Além de tudo, somos zumbis.
- GRRRRRRRAAAAAAAAAAWWWWWWWWWWWWW AAAARWWWW BRAAAAAIN
- AAAAAAAAAAAAAAHHH RAAAWWRRRRRR BRAAAAAIN
sábado, 28 de julho de 2012
É uma angústia que comprime o estômago há mais de dois
séculos. Oh, céus, como gostaria que isso fosse exagero. Tudo parece tão distante, tão desnecessário,
tão incompleto e é daquela dor que somem os dedos, as mãos, os olhos, a boca e
devagar come as palavras, come o papel,
come o lápis, os livros e a filosofia. Come seu rosto e come sua sombra.
sexta-feira, 27 de julho de 2012
O que será que me dá?
Bip, bip, bip. Sono, mão, despertador, travesseiro, chão, água, espelho, café, cigarro, café, chuveiro, flúor, tênis, xadrez, gasolina, cigarro, vento, semáforo, táxi, freio, cigarro, café, escada, escada, chiclete, janela, vento, poeira, fechadura, cigarro, e-mail, cigarro, tédio, tédio, tédio, música, café, cigarro, achocolatado, suco, cigarro, tênis, tédio, tédio, tédio, livro, cigarro, jornal, revista, cigarro, tédio, rosto, espelho, água, tédio, cigarro, janela, mochila, fumaça, cigarro, carros, gasolina, trânsito, poeira, chaves, cigarro, tédio, tédio, livro, filme, refrigerante, chocolate, cigarro, tédio, tédio, tédio, cama, travesseiro, tédio, angústia, sono, gastrite, desespero, frio, lágrima, olhos. Bip, bip, bip.
Pra começar bem o fim de semana
Um pingo de chuva estourou na pedra de gelo do meu whisky
Eu lembrei de ti, que sempre quer botar
Pingos de I em ipsilon. Ih, o que é que há?
Parece até que eu sou um livro mal escrito
E que você é uma caneta cor vermelha
Rasurando o que não aceita nem consegue decifrar.
Outras vezes voce tenta feito louca rasgar as minhas páginas
Mal eu esqueço do que lembrei, você aparece: olá!
Olá coisa nenhuma é o que me diz
Roubando meu whisky pra falar
Que eu te beijo como Judas beijou Cristo
Pois levo um tempo a imaginar como seria
Com que e quando eu trairia o que eu
Jamais jurei te dar
Põe na minha boca palavras que não são minhas
Com voz trêmula e trágica
E me ameaça quando diz: Eu vou embora
Vá, você tem seu direito de ir e vir
Mas eu tenho o meu de querer ficar
Não precisa de um pedido de habeas corpus
A porta está aberta, tchau
quinta-feira, 26 de julho de 2012
O que não tem remédio...
O tom, o gosto, o cheiro... Talvez eu tenha sentido a
frequência suave da sua voz rouca declamando as notas poéticas de uma vida tão
maravilhosamente angustiante. Engraçado é como você capta minha alma perdida na
dança do tempo sem nem sequer sentir poucos segundos do meu olhar que vaga pelo
mundo procurando algo que encontro todo dia nas palavras jogadas, gritadas,
escancaradas para quem quiser ouvir e por que será isso que encaixa-se
perfeitamente com o que eu deixei para trás ou o que eu procuro para traçar os
caminhos?
Ficamos perdidos no passado em um momento que talvez nem saberíamos sentir isso
um pelo outro. Me dói saber que existe quem complete esse vazio exatamente por
você não fazer a mínima ideia que completa alguma coisa em algum lugar.
quarta-feira, 27 de junho de 2012
Soneto
Importuna Razão, não me persigas;
Cesse a ríspida voz que em vão murmura;
Se a lei do Amor, se a fôrça da ternura
Nem domas, nem contrastas, nem mitigas:
Se acusas os mortais, e os não abrigas,
Se (conhecendo o mal) não dás a cura,
Deixa-me apreciar minha loucura,
Importuna Razão, não me persigas,
É teu fim, seu projecto encher de pejo
Esta alma, frágil vítima daquela
Que, injusta e vária, noutros laços vejo:
Queres que fuga de Marília bela,
Que a maldiga, a desdenhe; e o meu desejo
É carpir, delirar, morrer por ela.
(Bocage)
Cesse a ríspida voz que em vão murmura;
Se a lei do Amor, se a fôrça da ternura
Nem domas, nem contrastas, nem mitigas:
Se acusas os mortais, e os não abrigas,
Se (conhecendo o mal) não dás a cura,
Deixa-me apreciar minha loucura,
Importuna Razão, não me persigas,
É teu fim, seu projecto encher de pejo
Esta alma, frágil vítima daquela
Que, injusta e vária, noutros laços vejo:
Queres que fuga de Marília bela,
Que a maldiga, a desdenhe; e o meu desejo
É carpir, delirar, morrer por ela.
(Bocage)
La chanson la moins finie
"(...)
J'aurais toujours au fond de mon coeur
Un vieux nid d'oiseaux migrateurs
Où viennent se poser la confiance
Et la peur par intermittence
Un ciel ouvet sur l'interdit
D'où je rejoins des galaxies
Quand la nuit avare de lune
M'offre le calme de la brume
Ma chanson pour l'Univers
La plus perso de mes prières
Ni spleen ni mélancolie
C'est ma passion pour l'infini"
Yann Perreau
J'aurais toujours au fond de mon coeur
Un vieux nid d'oiseaux migrateurs
Où viennent se poser la confiance
Et la peur par intermittence
Un ciel ouvet sur l'interdit
D'où je rejoins des galaxies
Quand la nuit avare de lune
M'offre le calme de la brume
Ma chanson pour l'Univers
La plus perso de mes prières
Ni spleen ni mélancolie
C'est ma passion pour l'infini"
Yann Perreau
Dos fragmentos do caos
- Não pode ser bom você chegar ao ponto de ter que abandonar até o que há de ruim por dentro e por fora para poder começar a redesenhar tudo o que foi perdido no desenrolar dos acontecimentos.
- O que há de bom ainda permanece. Permanece?
- Não precisei abandonar, ele foi embora sem eu fazer muito esforço.
- E o que pode ser feito sobre isso?
- Pensei na possibilidade de sentar e chorar, mas a efetividade disso é tão falha quanto esperar o tempo resolver as pendências. O tempo não resolve nada, a lágrima não resolve nada, a espera só piora todas as coisas. Esperança talvez seja a pior coisa a sentir, acreditar é a pior das virtudes. Agora é hora de levantar dessa cadeira e, já sem nada dentro de mim, começar a destruição. É o único modo que eu vejo para poder conseguir caminhar.
Do caderno de Virgínia - Dia último das causas primárias de todos os males
Tu que me fizeste poeta. E com teu bandolim colocou a poetar-se nos sentidos ébrios das cousas mundanas. Tu que te fizeste escravo. E com os mil grilhões detidos foram meus ânimos à sua cabeceira. Desde meus doirados e lamuriosos tempos pueris tu que me fizeste e por fazer eu assim, dor de flor seca do algodoeiro, prendi meu coração aos pés que nunca tocarão os pisos de minha varanda empoeirada. Tu que me fizeste escrava. Tu que me colocaste a p(r)o(f)etizar.
Das coisas que quero dizer
"[...] eu disse cegado por tanta luz tenho dezessete anos e minha saúde é perfeita e sobre esta pedra fundarei a minha Igreja particular, para meu próprio uso, a igreja que frequentarei de pés descalço, peito desnudo, nu como vim ao mundo, e muita coisa estava acontecendo comigo pois me senti num momento profeta da minha própria história [...]"
Lavoura Arcaica - Raduan Nassar
Lavoura Arcaica - Raduan Nassar
domingo, 3 de junho de 2012
Traditore, traditore...
Eram 10 bancos coloridos e eles
sempre a faziam lembrar-se de sua infância brincando de dança da cadeira. Dois
brancos, dois amarelos, três azuis e três vermelhos e ela procurava uma
linearidade entre esses bancos e pensava sobre em como precisava ser menos sistemática e a possibilidade de, na verdade,
ela ser um marinheiro do século XVIII. Dizem os antigos que em tempos de mar
calmo eles ficavam malucos... Quantos eus acabamos criando e quem de fato é o verdadeiro eu ou o outro? O desdobramento de sonhos e o universo refletido em si mesmo intrigavam demais a sua pobre mente que engrenava em mau estado de conservação.
E a vida andava morna demais. Nem fria, nem em
ebulição, estava tudo em banho maria, mas não chegava nem a ser agradável.
Agradabilíssimo ela não queria, tudo que era agradabilíssimo na vida das
pessoas era qualquer coisa que as faziam parecer um poodle insano latindo
efusivo e estridente de uma felicidade que no fim era só prisão. Enquanto isso
ela ainda não tirava a falta de linearidade dos bancos coloridos da cabeça.
Sempre ia sobrar um vermelho e um azul e haveria maneira deles fazerem parte um
do outro?
Hoje
ela sente o que eu sentia naqueles domingos que ficaram perdidos entre
chocolates e praças, gritos e frustrações. Não consigo decifrar o alcance e quando eu finjo que não
estou sentindo nada a única coisa possível de sentir é você. Ela já não tem
mais nada a ver com isso, nem Valerie, nem Virgínia, nem o imponderável, só o
imensurável que na verdade não passa de uma régua de 15 centímetros,
adequadamente feita para caber em um estojo.
Os
bancos coloridos agora estavam presos uns aos outros, a janela escancarada e o
pouco de sol que restava entre as nuvens de chuva a faziam ter uma ligação com
tudo isso que sempre estava ocorrendo. Tudo estava intrinsicamente ligado,
explicado, teorizado, com tanta metodologia vã. Essa merda não serve pra nada.
O
sol continuava incomodar a retina. Havia um bem-te-vi parado no fio de
eletricidade do poste em frente a janela do segundo andar e ela resolveu ver
como era ser um pássaro.
-
Segura a minha mão? Estou com medo.
-
Eu nunca soltei.
Ane B.
Ane B.
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Música de sexta...
(...)
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
Vai reduzir as ilusões à pó.
Preste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás a beira do abismo
Abismo que cavastes com teus pés
quinta-feira, 31 de maio de 2012
Nothing in my chamber door
Com
a intensidade da nicotina inundando as células, pulsa.
Com
a lentidão das decisões incertas, ecoa.
Com
a pequeneza das manhãs de domingo, levanta.
Com
a inquietude das palavras suprimidas, cala.
Para quem interessar
O
café está amargo.
Foi
a única coisa que consegui perceber.
Além
dos cigarros,
além
da folha de ponto,
da
escadaria,
da
mente inquieta.
Tinha
subjetividade demais nessa objetividade,
mas
faltava açúcar nesse cinzeiro.
Talvez
esteja no bolso,
na
palavra por dizer,
na
pérola na ponta da flor,
no
bem que se quis.
A
torneira continua pingando.
Ane
B.
O que ficou
pedaços do que me restou.
“Essa
noite fiquei acordada com a janela escancarada olhando vez ou outra
para as constelações, vez ou outra para as luzes amarelas do postes
que apagam quando eu passo. Fiquei aguardando algo brilhar ali em
cima. O sino dos ventos dançava tão bonito e movimentava os
pensamentos que voavam e debatiam-se pela arquitetura simples das
paredes que me seguravam. Da minha cama dava para penetrar na chuva
que resistiu em cair durante todos estes dias seguintes… Foi como
um presente o cheiro se espalhar no ambiente e devagar ir tomando
conta dos meus sentidos. E a cada gota eu ouvia você mais forte,
mais gelado, mais excitante, mais perpetuante. Não tinha mais como
negar que seus olhos já pulsavam em mim e aquela risada musicada não
tardaria em chegar…”
Ane B.
Very special one
(...)
Que
baboseira romântica a minha foi fazer tudo silenciar enquanto você
caminhava em minha direção e o mundo se desdobrando aos seus pés
calçados em um tênis surrado fora de moda. Não sei se na verdade
foi projeção ilusionística minha te ver dessa forma magnânima
sendo que na verdade você me pediu um cigarro e trocamos poucas
palavras de estranhos que se fazem favores de alma num mundo débil
de quem gosta de blues, cigarros e café. Você surgiu em mim naquele
instante e eu pensei e pensei e de repente você estava lá novamente
me falando de como a vida foi difícil e de como você desejaria
comprar um carro, e falávamos de sexta feira e procurávamos um
lugar que eu, perdida no encanto de suas palavras, me perdi no mapa
da minha própria alma e fracasso. Agora me coloco a imaginar seus
traços delicados de eloquência refletindo nos meus olhos e a minha
frustração angustiante refletindo nos seus azuis e verdes pontos de
magia.
Por que ousou me deixar, “extasiantemente”, confusa a
ponto de me calar e não me exaltar externamente diante da beleza de
estar agora indecisa se dou ou não um passo a frente mesmo correndo
um risco de levar um tiro no pé? Mas já foram tantos que talvez nem
sentiria. É que eu queria de verdade ouvir teu sim e te ver
novamente, dessa vez sem ser obra do acaso, e poder deitar minha
cabeça no seu colo, ne me quitte pas, e na verdade eu desejaria
mesmo te ver todos os dias por obra do acaso e te oferecer um café
na expectativa de ver se você nota que muito provavelmente não foi
pura e simples coincidência como você mencionou, mas sim foi uma
mudança que a posição dos planetas que entraram na órbita de
saturno, no sextil de vênus em quadratura com
agora-chegou-sua-vez-garota e na verdade pudéssemos nos unir e if
you close the door the night could last forever. Aquela nossa noite
de conversas, tão bobas e encaixadas, poderia ter durado para
sempre, para mim durará e pra você? O engraçado é pensar que foi
uma noite tão minha e tão sua, se-pa-ra-da-men-te. Não consigo
esquecer e entender a malícia ou inocência dos seus olhos. Talvez
eu tenha nesse momento começado a amar seu sorriso calmo e sua alma
docemente surpreendedora. Talvez o que eu mais queira nesse momento é
ter você comigo, em mim, revirado e louco ou, até mesmo, soluçando
e bêbado, ou dormindo no meu colo.
Foi difícil entender a minha
intenção que eu sempre tento deixar exclusa das ações? Mas por
maior que seja a inclusão, exclusão, filosofia, amor, essa merda
toda, eu não gosto de ver você crescendo cada dia mais em mim,
pensando até que você chegou a desaparecer e eu até cheguei a me
iludir, ou desiludir – não consegui definir ainda. É que na
verdade eu achei tão impossível quando eu morri ao te ver indo e de
repente se transfigurando e voltando, com castanhos esverdeados e uma
super 8 e falando “vamos menina, por mais birra que tu faça, esse
mundo aí é nosso e não há escapatória senão desbravar”.
Eu
não queria de verdade quando eu tentei esquecer, baader meinhof
blues, mas a minha verdade é tão escrota e falha que já nem sei
mais quando faço ou quero algo, se é definitivo ou não tem me
doído menos sabe… E eu até pensei em aceitar o convite, mas o
laranja do céu ainda me deixa presa nessa superfície árida de
sentimentos, nojentos os que se arrastam sobre ela. After hour, after
hour… Será que é preciso tudo isso?
E agora tudo começa a
engrenar com uma coincidência pré-estabelecida e se eu já li ou
não esse livro que você tem na mão, pouco me importa, eu queria
mesmo era viver ele com você ou viver você, ou só você. Não
facilita a cura saber o antídoto, isso nem deveria existir. Por que
todas as vezes que se mostra de alguma forma você me bloqueia?
Possivelmente eu te amo e eu detesto conseguir enxergar o quanto tudo
poderia dar certo e o quanto eu sei que você também consegue
enxergar eu sei que você sabe que eu sei de tudo isso que acontece
envolto de nós. Mas desse jeito você faz aparecer um não a cada
recuo. E logo eu que sempre recuei. Agora estou aqui na sua frente
ainda inventando coincidências para, quem sabe, caso você não
saiba mesmo, saber.
Minha vida me doía fundo, sangrada e sem
saída. Tudo que eu precisava era do sol quente da manhã seguinte
que não viria, aquecendo minha cabeça confusa. Cobri o rosto com as
mãos e comecei a chorar. Coisas boas não estão acontecendo com
pessoas boas.
Ane B.
I don't think so...
As luas passam muito rápido na cidade do sol. Quelqu’um m’a dit… Muitas luas me separam de você. C’est terrible. A que ponto eu cheguei dentro de mim pra acumular tanto apego? Je ne sais pas. E na verdade eu posso só ter criado essa ilusão tola dentro de mim. Je suis désolé. Quanta coisa eu vou renunciar agora e talvez isso vá doer um pouco, mas é necessário. Rien de rien. Na verdade tudo que eu queria que isso fosse apenas um engano. Ne me quitte pas. Jamais, mas eu te deixarei. Arrivederci, mio pezzo di illusione!
Ane B.
Por dizer
Sabe o que é? É que
cansei de dizer as coisas depois que o ônibus partiu. Entendi agora
a verdadeira sensação extasiante de ver seu sorriso solto e
musicado. Pode parecer muito precipitado e até sem sentidos ou
muitas razões, mas é que na verdade você apareceu de uma forma
pouco esperada e, talvez, me atreveria dizer que foi da forma mais
esperada em sonhos, e na trivialidade rotineira você preencheu
dentro de mim algo que, mesmo à distância, soluciona qualquer
equação sem paradigmas absurdos, contesta e supera qualquer dogma
enigmático dessa minha religião que jurava incontestável. É que
de alguma forma absurda você preenche todas as lacunas e aposto que
nem suspeita dessa intensidade. Talvez eu seja demasiada e ponto. Nem
demasiada chata ou exagerada, só demasiada e isso é além de muita
coisa desejada por mim, é inevitável e inconsolável estar assim e
só me resta escrever para quem quer que seja leia e saber que você
está em mim e nem sei se queria isso, mas é mais um dogma. Você
destruiu aqueles e se criou como um completamente indestrutível que
não há ser vivente que tenha a capacidade, a vil capacidade
iconoclasta, de te desfazer de dentro de mim. Sempre assim, leve.
Ane B.
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