quinta-feira, 31 de maio de 2012

Nothing in my chamber door






Com a intensidade da nicotina inundando as células, pulsa.
Com a lentidão das decisões incertas, ecoa.
Com a pequeneza das manhãs de domingo, levanta.
Com a inquietude das palavras suprimidas, cala.

Para quem interessar



O café está amargo.
Foi a única coisa que consegui perceber.
Além dos cigarros,
além da folha de ponto,
da escadaria,
da mente inquieta.
Tinha subjetividade demais nessa objetividade,
mas faltava açúcar nesse cinzeiro.
Talvez esteja no bolso,
na palavra por dizer,
na pérola na ponta da flor,
no bem que se quis.
A torneira continua pingando.

Ane B.

O que ficou



pedaços do que me restou.


“Essa noite fiquei acordada com a janela escancarada olhando vez ou outra para as constelações, vez ou outra para as luzes amarelas do postes que apagam quando eu passo. Fiquei aguardando algo brilhar ali em cima. O sino dos ventos dançava tão bonito e movimentava os pensamentos que voavam e debatiam-se pela arquitetura simples das paredes que me seguravam. Da minha cama dava para penetrar na chuva que resistiu em cair durante todos estes dias seguintes… Foi como um presente o cheiro se espalhar no ambiente e devagar ir tomando conta dos meus sentidos. E a cada gota eu ouvia você mais forte, mais gelado, mais excitante, mais perpetuante. Não tinha mais como negar que seus olhos já pulsavam em mim e aquela risada musicada não tardaria em chegar…”

Ane B.

Very special one

(...)

Que baboseira romântica a minha foi fazer tudo silenciar enquanto você caminhava em minha direção e o mundo se desdobrando aos seus pés calçados em um tênis surrado fora de moda. Não sei se na verdade foi projeção ilusionística minha te ver dessa forma magnânima sendo que na verdade você me pediu um cigarro e trocamos poucas palavras de estranhos que se fazem favores de alma num mundo débil de quem gosta de blues, cigarros e café. Você surgiu em mim naquele instante e eu pensei e pensei e de repente você estava lá novamente me falando de como a vida foi difícil e de como você desejaria comprar um carro, e falávamos de sexta feira e procurávamos um lugar que eu, perdida no encanto de suas palavras, me perdi no mapa da minha própria alma e fracasso. Agora me coloco a imaginar seus traços delicados de eloquência refletindo nos meus olhos e a minha frustração angustiante refletindo nos seus azuis e verdes pontos de magia.
Por que ousou me deixar, “extasiantemente”, confusa a ponto de me calar e não me exaltar externamente diante da beleza de estar agora indecisa se dou ou não um passo a frente mesmo correndo um risco de levar um tiro no pé? Mas já foram tantos que talvez nem sentiria. É que eu queria de verdade ouvir teu sim e te ver novamente, dessa vez sem ser obra do acaso, e poder deitar minha cabeça no seu colo, ne me quitte pas, e na verdade eu desejaria mesmo te ver todos os dias por obra do acaso e te oferecer um café na expectativa de ver se você nota que muito provavelmente não foi pura e simples coincidência como você mencionou, mas sim foi uma mudança que a posição dos planetas que entraram na órbita de saturno, no sextil de vênus em quadratura com agora-chegou-sua-vez-garota e na verdade pudéssemos nos unir e if you close the door the night could last forever. Aquela nossa noite de conversas, tão bobas e encaixadas, poderia ter durado para sempre, para mim durará e pra você? O engraçado é pensar que foi uma noite tão minha e tão sua, se-pa-ra-da-men-te. Não consigo esquecer e entender a malícia ou inocência dos seus olhos. Talvez eu tenha nesse momento começado a amar seu sorriso calmo e sua alma docemente surpreendedora. Talvez o que eu mais queira nesse momento é ter você comigo, em mim, revirado e louco ou, até mesmo, soluçando e bêbado, ou dormindo no meu colo.
Foi difícil entender a minha intenção que eu sempre tento deixar exclusa das ações? Mas por maior que seja a inclusão, exclusão, filosofia, amor, essa merda toda, eu não gosto de ver você crescendo cada dia mais em mim, pensando até que você chegou a desaparecer e eu até cheguei a me iludir, ou desiludir – não consegui definir ainda. É que na verdade eu achei tão impossível quando eu morri ao te ver indo e de repente se transfigurando e voltando, com castanhos esverdeados e uma super 8 e falando “vamos menina, por mais birra que tu faça, esse mundo aí é nosso e não há escapatória senão desbravar”.
Eu não queria de verdade quando eu tentei esquecer, baader meinhof blues, mas a minha verdade é tão escrota e falha que já nem sei mais quando faço ou quero algo, se é definitivo ou não tem me doído menos sabe… E eu até pensei em aceitar o convite, mas o laranja do céu ainda me deixa presa nessa superfície árida de sentimentos, nojentos os que se arrastam sobre ela. After hour, after hour… Será que é preciso tudo isso?
E agora tudo começa a engrenar com uma coincidência pré-estabelecida e se eu já li ou não esse livro que você tem na mão, pouco me importa, eu queria mesmo era viver ele com você ou viver você, ou só você. Não facilita a cura saber o antídoto, isso nem deveria existir. Por que todas as vezes que se mostra de alguma forma você me bloqueia? Possivelmente eu te amo e eu detesto conseguir enxergar o quanto tudo poderia dar certo e o quanto eu sei que você também consegue enxergar eu sei que você sabe que eu sei de tudo isso que acontece envolto de nós. Mas desse jeito você faz aparecer um não a cada recuo. E logo eu que sempre recuei. Agora estou aqui na sua frente ainda inventando coincidências para, quem sabe, caso você não saiba mesmo, saber.
Minha vida me doía fundo, sangrada e sem saída. Tudo que eu precisava era do sol quente da manhã seguinte que não viria, aquecendo minha cabeça confusa. Cobri o rosto com as mãos e comecei a chorar. Coisas boas não estão acontecendo com pessoas boas.


Ane B.




I don't think so...



As luas passam muito rápido na cidade do sol. Quelqu’um m’a dit… Muitas luas me separam de você. C’est terrible. A que ponto eu cheguei dentro de mim pra acumular tanto apego? Je ne sais pas. E na verdade eu posso só ter criado essa ilusão tola dentro de mim. Je suis désolé. Quanta coisa eu vou renunciar agora e talvez isso vá doer um pouco, mas é necessário. Rien de rien. Na verdade tudo que eu queria que isso fosse apenas um engano. Ne me quitte pas. Jamais, mas eu te deixarei. Arrivederci, mio pezzo di illusione!

Ane B.

Por dizer



Sabe o que é? É que cansei de dizer as coisas depois que o ônibus partiu. Entendi agora a verdadeira sensação extasiante de ver seu sorriso solto e musicado. Pode parecer muito precipitado e até sem sentidos ou muitas razões, mas é que na verdade você apareceu de uma forma pouco esperada e, talvez, me atreveria dizer que foi da forma mais esperada em sonhos, e na trivialidade rotineira você preencheu dentro de mim algo que, mesmo à distância, soluciona qualquer equação sem paradigmas absurdos, contesta e supera qualquer dogma enigmático dessa minha religião que jurava incontestável. É que de alguma forma absurda você preenche todas as lacunas e aposto que nem suspeita dessa intensidade. Talvez eu seja demasiada e ponto. Nem demasiada chata ou exagerada, só demasiada e isso é além de muita coisa desejada por mim, é inevitável e inconsolável estar assim e só me resta escrever para quem quer que seja leia e saber que você está em mim e nem sei se queria isso, mas é mais um dogma. Você destruiu aqueles e se criou como um completamente indestrutível que não há ser vivente que tenha a capacidade, a vil capacidade iconoclasta, de te desfazer de dentro de mim. Sempre assim, leve.



Ane B.