(...)
Que
baboseira romântica a minha foi fazer tudo silenciar enquanto você
caminhava em minha direção e o mundo se desdobrando aos seus pés
calçados em um tênis surrado fora de moda. Não sei se na verdade
foi projeção ilusionística minha te ver dessa forma magnânima
sendo que na verdade você me pediu um cigarro e trocamos poucas
palavras de estranhos que se fazem favores de alma num mundo débil
de quem gosta de blues, cigarros e café. Você surgiu em mim naquele
instante e eu pensei e pensei e de repente você estava lá novamente
me falando de como a vida foi difícil e de como você desejaria
comprar um carro, e falávamos de sexta feira e procurávamos um
lugar que eu, perdida no encanto de suas palavras, me perdi no mapa
da minha própria alma e fracasso. Agora me coloco a imaginar seus
traços delicados de eloquência refletindo nos meus olhos e a minha
frustração angustiante refletindo nos seus azuis e verdes pontos de
magia.
Por que ousou me deixar, “extasiantemente”, confusa a
ponto de me calar e não me exaltar externamente diante da beleza de
estar agora indecisa se dou ou não um passo a frente mesmo correndo
um risco de levar um tiro no pé? Mas já foram tantos que talvez nem
sentiria. É que eu queria de verdade ouvir teu sim e te ver
novamente, dessa vez sem ser obra do acaso, e poder deitar minha
cabeça no seu colo, ne me quitte pas, e na verdade eu desejaria
mesmo te ver todos os dias por obra do acaso e te oferecer um café
na expectativa de ver se você nota que muito provavelmente não foi
pura e simples coincidência como você mencionou, mas sim foi uma
mudança que a posição dos planetas que entraram na órbita de
saturno, no sextil de vênus em quadratura com
agora-chegou-sua-vez-garota e na verdade pudéssemos nos unir e if
you close the door the night could last forever. Aquela nossa noite
de conversas, tão bobas e encaixadas, poderia ter durado para
sempre, para mim durará e pra você? O engraçado é pensar que foi
uma noite tão minha e tão sua, se-pa-ra-da-men-te. Não consigo
esquecer e entender a malícia ou inocência dos seus olhos. Talvez
eu tenha nesse momento começado a amar seu sorriso calmo e sua alma
docemente surpreendedora. Talvez o que eu mais queira nesse momento é
ter você comigo, em mim, revirado e louco ou, até mesmo, soluçando
e bêbado, ou dormindo no meu colo.
Foi difícil entender a minha
intenção que eu sempre tento deixar exclusa das ações? Mas por
maior que seja a inclusão, exclusão, filosofia, amor, essa merda
toda, eu não gosto de ver você crescendo cada dia mais em mim,
pensando até que você chegou a desaparecer e eu até cheguei a me
iludir, ou desiludir – não consegui definir ainda. É que na
verdade eu achei tão impossível quando eu morri ao te ver indo e de
repente se transfigurando e voltando, com castanhos esverdeados e uma
super 8 e falando “vamos menina, por mais birra que tu faça, esse
mundo aí é nosso e não há escapatória senão desbravar”.
Eu
não queria de verdade quando eu tentei esquecer, baader meinhof
blues, mas a minha verdade é tão escrota e falha que já nem sei
mais quando faço ou quero algo, se é definitivo ou não tem me
doído menos sabe… E eu até pensei em aceitar o convite, mas o
laranja do céu ainda me deixa presa nessa superfície árida de
sentimentos, nojentos os que se arrastam sobre ela. After hour, after
hour… Será que é preciso tudo isso?
E agora tudo começa a
engrenar com uma coincidência pré-estabelecida e se eu já li ou
não esse livro que você tem na mão, pouco me importa, eu queria
mesmo era viver ele com você ou viver você, ou só você. Não
facilita a cura saber o antídoto, isso nem deveria existir. Por que
todas as vezes que se mostra de alguma forma você me bloqueia?
Possivelmente eu te amo e eu detesto conseguir enxergar o quanto tudo
poderia dar certo e o quanto eu sei que você também consegue
enxergar eu sei que você sabe que eu sei de tudo isso que acontece
envolto de nós. Mas desse jeito você faz aparecer um não a cada
recuo. E logo eu que sempre recuei. Agora estou aqui na sua frente
ainda inventando coincidências para, quem sabe, caso você não
saiba mesmo, saber.
Minha vida me doía fundo, sangrada e sem
saída. Tudo que eu precisava era do sol quente da manhã seguinte
que não viria, aquecendo minha cabeça confusa. Cobri o rosto com as
mãos e comecei a chorar. Coisas boas não estão acontecendo com
pessoas boas.
Ane B.